Upanishad Ishavasya numa ótica espírita

Teria o hinduísmo e o espiritismo mais a ver do que imaginamos?

A invocação do Upanishad Ishavasya é de extrema significância pois dá a diretriz de todo o ensinamento dos upanishads, assim como possui a essência do pensamento vedanta. Estima-se a sua idade em 3500 anos, antes da invenção dos alfabetos sânscritos, sendo todo o conhecimento transmitido oralmente. Seu nome deriva da primeira palavra que aparece, Isha, que significa o Absoluto, a Plenitude, o Ser Infinito. Gandhi fez uma bela homenagem a este Upanishad quando disse: “Se as Upanishads e todas as outras escrituras fossem repentinamente reduzidas a cinzas, e se somento o primeiro verso da Isha Upanishad permanecesse na memória dos hindus, o hinduísmo viveria para sempre. A invocação inicial a que Gandhi se refere diz: “Aquilo é o Todo; Isto é o Todo. O Todo surge do Todo. Quando tiramos o Todo do Todo, o Todo permanece” (îsHâ vâsyamidaM sarvaM yat kiñca jagatyâM jagat | tena tyaktena bhuñjîthâ mâ gRidhaH kasya sviddhanam). A essência é a mesma do Shantipath: Om purnamadah purnamidam purnat purnamudacyate | purnasya purnamadaya purnamevavasisyate | om shantih shantih shantih

Mas como o Todo pode permanecer Todo quando o Todo lhe é retirado?

Temos dois problemas iniciais:
O primeiro é que a nossa educação é voltada para a racionalização e numa para a filosofia. Não podemos ver essa pergunta numa lógica quantitativa, como um problema matemático. Nosso cérebro lê a pergunta e pensa: Como tirar parte de um todo e ele permanecer ainda todo, isto é, x – y = x, sendo x qualquer número diferente de zero?

O segundo é que somos criados dentro uma visão cristã onde o conceito de Deus vem através de uma ideia mística, antropomórfica ou material da divindade.

Deixando de lado essas duas visões que temos de Deus, podemos começar a entender melhor a questão inicial. Como tirar o Todo e ele ainda permanecer o Todo?

Quando algo é tirado de alguma coisa, essa última registra uma perda quantitativa, ou seja, não pode continuar a mesma coisa quando algo é tirado. Mas não devemos nos prender a quantidade, como sempre somos comandados e sim a qualidade, o que obviamente a invocação fala. Nenhum processo quantitativo pode causar mudança na qualidade das coisas. Podemos ver isso no Bhagavad Gita quando ele fala “indiviso mesmo na divisão” (Avibhaktam vibhakteshu). O espiritismo, mesmo com base cristã, muda o conceito desse Deus paternalista, demiurgo, uma divindade pessoal; conforme o Livro dos Espíritos de Allan Kardec (questões 1 a 3), Deus passa a ser uma consciência cósmica, uma inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, infinito e cuja essência está presente em todas as dimensões do Universo, isto é, o Todo.

A qualidade é algo indivisivel, não há como registrar em números. Ela existe em sua totalidade mesmo na parte – esta é a própria natureza da qualidade. Mas o Todo não deve ser confundido com a totalidade, pois quando partes são colocadas juntas, chegamos a uma totalidade, mas o Todo não é feito de partes. O aumento ou a diminuição quantitativa das partes não afeta o Todo.

Parece complicado ou filosófico demais, mas pensemos numa pizza. Em sua totalidade, ela é feita de partes: fatias, queijo, massa, molho… Se retiramos uma fatia, ela não estará mais em sua totalidade. Mas nem por isso ela deixará de ser pizza, sua essência, sua qualidade, isto é, o Todo. Assim como se pensarmos somente na fatia, ela será uma parte da totalidade, mas mesmo assim também é pizza, afinal ela é uma fatia de pizza e não fatia de bolo. Sua essência se manteve.

Sendo a qualidade das coisas indivisível, a qualidade de Brahman, Deus, o Absoluto… deve residir também em todas as partes, em todas as manifestações, mesmo nas mais inferior de suas expressões. Isso pode ser observado na continuação do Upanishad: “Tudo isso deve ser envolvido por Isha. Todas as coisas moventes que existem no mundo movente.” Allan Kardec, no Livro dos Espíritos pergunta: Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? E como resposta, basta que procuremos a causa de tudo o que não é obra do homem. Não há efeito sem causa. Se o Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem causa e afirmar que o nada fez algo.

Aqui, Isha não deve ser entendido no sentido antropomórfico como estamos acostumados, barbudo, de roupas brancas… Isha é a Inteligência Suprema, a Consciência Cósmica, é Brahman, o Absoluto, que tudo permeia. Como esta Consciência está em tudo, ela também habita os objetos moventes, mas para se mover, ela não está mais presa às limitações de Tempo e Espaço, passa a estar em todas as partes ao mesmo tempo, torna-se atemporal. Como o tempo implica em sucessão na qual as coisas existem, sucessão e onipresença são contraditórias. Como o Absoluto está em todas as coisas simultâneamente e nãos mais em sucessão, passa a ser Onipresente e Infinito. No Livro dos Espíritos temos que se Deus não fosse infinito, se tivesse tido um princípio, se tivesse saído do nada ou sido criado por um ser anterior, não seria mais infinito, não seria superior a tudo, não seria por conseguinte, Deus.

Não ver a qualidade das coisas em tudo o que é manifesto é cair em maya ou ilusão. O upanishad diz no 15º verso: “A face do real está coberta | Com um véu dourado | Que tu Oh Pushan descubras | Que eu, devotado à verdade, possa ver”. De acordo o com verso, a experiência espiritual é um processo de descoberta onde devemos retirar véu após véu. Quando o retiramos, aparece em toda a sua majestado o Espírito Supremo. Kardec questiona se é possível o homem compreender a natureza íntima de Deus e se algum dia será dado essa possibilidade; e segundo a sua codificação falta-nos sentido para isso e só será possível quando o espírito não estiver obscurecido pela matéria: “O véu se levanta a seus olhos, à medida que ele se depura; mas para compreender certas coisas, são-lhe precisas faculdades que ainda não possui” (questão 18 do Livro dos Espíritos).

Esse véu tanto nos fascina e atrai de que não estamos dispostos a removê-lo, nosso pensamento o teceu com o mais belo material; ele oculta a face do Todo. Quando esse véu das projeções da mente for removido, conheceremos a verdade e nos libertaremos (Moksha), ou segundo as palavras de Cristo: “Conheceis a verdade e ela vos libertará” (João 8;32).

Fiquem na paz!

Gui Silva

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