Karma, a lei de causalidade

Muito se fala sobre o karma. Para nós, ocidentais, sempre está associado a um aspecto negativo (“Esse é o meu karma!”), mas na realidade essa lei de causa e efeito, ao mesmo tempo que é tão simples, possui diversos detalhes.

A palavra karma vem da raiz sânscrita kri que significa ação. O karma é a soma total de todos os nossos atos físicos e mentais (positivos e negativos), tanto nesta vida como nas anteriores, assim como os resultados destes atos, isto é, causa e efeito. Afinal, onde exista uma causa deve sempre haver um efeito, assim como nenhum acontecimento tem lugar sem que exista uma causa. Tudo na natureza obedece a esta lei. Patanjali resume bem essa relação causa-efeito quando diz que teremos alegria ou tristeza como fruto, conforme a causa seja virtude ou vício (Y.S. II-14 – Te hlada-paritapa-phalah punyapunya-hetutvat).  É exatamente a mesma mensagem quando dizemos que cada um colhe aquilo que planta. Essa lei de causa e efeito, também chamada de lei da causalidade (e não casualidade que é outra coisa completamente distinta) inclui a lei de ação e reação, a lei da compensação e a lei da retribuição.

A lei de ação e reação é equivalente a 3ª lei de Newton que diz que para cada ação existe uma reação oposta e com mesma intensidade. Imaginemos uma janela e num momento de fúria alguém a soca. A janela será “machucada” no momento em que o vidro se quebrar diversos pedaços. Como reação, a mão da pessoa se cortará com os pedaços do vidro. Pensemos agora num cachorrinho amigável, quando acariciamos ele recebemos lambidas de volta (reação).

A lei de compensação é outra lei que é impossível desafiar ou escapar. Imagine o karma como um cheque. Se o saldo de ações for negativo, pagamos; se for positivo, recebemos. Esse cheque obrigatoriamente terá que ser compensado, isto é, ou pagaremos ou receberemos. Não importa se for nesta vida ou em qualquer outra futura, ele algum dia baterá na conta.

A lei da retribuição é parecida com a lei de ação e reação, porém com um diferencial. Enquanto na lei de ação e reação, de forma geral, para toda causa há um efeito; na lei de retribuição mostra que cada um sofre por sua própria ação e não que seja castigo de Deus ou qualquer outro caráter místico. Se por exemplo, comermos muito chocolate a ponto de termos dor de barriga, não podemos culpar o chocolate (como sempre fazemos) pelo mal-estar e sim a nós, por nossa gula.

Outro grande erro a respeito do karma é que só nos apegamos ao passado e esquecemos do presente e do futuro. Enquanto nós, ocidentais, o cometemos por sermos imediatistas, os hindus o dividem em três tipos: sanchita, prarabdha e agami. Sanchita é o karma acumulado no passado. Todos os atos já realizados. Prarabdha é o karma presente, aquele que estamos colhendo, resultado de sanchita. E agami é o karma que estamos criando para o futuro (também pode ser chamado de kriyamana ou vartamana). Para entendermos melhor, imaginemos um fazendeiro que plantou uma semana na safra passada (sanchita). Como agora chegou a colheita, ele irá colher exatamente o que plantou (prarabdha). Se plantou morango, colherá morango. Não há como colher abóbora. Para a próxima safra, ele fará um novo plantio (agami) e cabe a ele decidir se quer plantar morango novamente ou abóbora dessa vez.

Swami Sivananda resume bem ao dizer: “O homem pode ser comparado a uma planta. Ele cresce e floresce como uma planta e no final, morre. Mas não completamente. A planta cresce, floresce e morre, deixando atrás sementes, que depois produzem outras plantas. Ao morrer, o homem deixa atrás de si seu karma – as boas e más ações de sua vida. O corpo pode morrer e desintegrar-se, mas as impressões das ações não morrem. Ele deve voltar a nascer para desfrutar os frutos destas ações.” A alma é como esse fazendeiro e seu pedaço de terra. A extensão, a natureza do solo e as condições climáticas estão predeterminadas, mas ele tem a liberdade de cultivar a terra, fertilizá-la, fazer a colheita ou abandoná-la como um terreno baldio. “Nossos atos tecem asas da libertação ou algemas de cativeiro, para a nossa vitória ou perda. A ninguém devemos o destino senão a nós próprios” (André Luiz).

Fiquem na paz!

Gui Silva

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